segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Entidades são suspeitas de desviar R$ 10 milhões por ano da saúde

Duas entidades que no papel eram sem fins lucrativos são suspeitas de desviar R$ 10 milhões por ano da área da saúde, segundo investigações do Ministério Público. Dinheiro de impostos que deveria ser investido em hospitais.
Segundo reportagem do Fantástico (Veja vídeo), quase R$ 1 milhão em dinheiro vivo foi encontrado num apartamento em Higienópolis, área nobre de São Paulo, durante operação deflagrada na última segunda-feira (11), pelo Ministério Público de Sorocaba (SP).
Foram apreendidos R$ 952 mil, 8 mil euros, US$ 3.200 e 1 mil pesos argentinos e chilenos. As malas de dinheiro foram encontradas na casa de Fabio Berti Carone. Segundo os promotores, ele é suspeito de comandar o esquema de desvio de recurso.
“Aquele era um dinheiro que deveria ser aplicado na saúde pública”, afirma o promotor Luiz Fernando Guinsberg Pinto.
As organizações chamadas Sistema Assistencial à Saúde (SAS) e Instituto SAS eram responsáveis pela gestão de hospitais em Itapetininga, São Miguel Arcanjo, Americana, Araçariguama e Vargem Grande Paulista, além do Rio de Janeiro e de Araranguá, em Santa Catarina. O papel dessa entidades é o de gerenciar os hospitais, e isso inclui compra de medicamentos e contratação de pessoal. As entidades fazem a gestão e o governo paga a conta.
ara o Ministério Público, no caso dos hospitais administrados pelo SAS e instituto SAS, a conta apresentada às prefeituras era maior que os valores realmente gastos. A apuração revelou que, embora constituídos na forma de rganizações não-governamentais independentes uma da outra, o SAS e Instituto SAS se confundiriam em uma única organização criminosa, administrada e comandada pelo mesmo líder.
“A finalidade era desviar verbas públicas através da emissão de notas frias e contratos superfaturados”, disse o delegado Wilson negrão.
“A investigação demonstrou que o único objetivo de Fabio Berti Carone à frente do SAS era desviar recursos públicos em proveito próprio”, afirma o promotor.
 
Presos foram soltos
Segundo os promotores, os contratos somavam R$ 100 milhões por ano.  De acordo com as investigações, 10% do valor dos contratos eram desviados. Ou seja, R$ 10 milhões por ano não iam para a Saúde.
Nesta semana, a polícia prendeu Fabio Carone e outras nove pessoas suspeitas de envolvimento com os desvios de dinheiro. Todas foram soltas.
Em entrevista ao Fantástico, um funcionário do setor de compras que não quis se identifcar confirmou a fraude. “Teve alguns casos lá que foi 10%, mas ele cobrou da empresa. Ele forçava a empresa”, contou.
 
Gravações
Em gravação telefônica, o funcionário comenta a propina de 10% para Fabio.  A hora que eu mostrei pra ele a conta, um milhão e duzentos, que eu achei que ele ia ficar contente, falei assim, um milhão e duzentos, ele tem dez, né? É... Então, cento e vinte pau”, conta o funcionário.
Em outro telefonema, uma funcionária cita uma reportagem do Fantástico sobre fraudes em hospitais.  “É a ética do mercado, entendeu? O mercado pratica 10%. Se eu ganho 1 milhão e 300, dou 130. É o normal”, diz.
Mulher: Você viu o Fantástico ontem?
Homem: Vi, vi. É, é exatamente isso que o Fábio faz! É exatamente isso!
Mulher: Então, você, cuidado, hein! Toma cuidado! Agora você tem que botar ele na parede e falar: "escuta, é só você que ganha e eu não ganho nada."
Pra conseguir fechar alguns contratos, o grupo de Fábio, segundo os promotores, pagava propina para servidores públicos. É o que teria acontecido aqui na cidade de Americana, interior de São Paulo.
 
Propina de R$ 100 mil
Os documentos da investigação a que os advogados tiveram acesso indicam que o prefeito e o secretário de Saúde também estavam envolvidos e receberam propina de R$ 100 mil.
O prefeito de Americana nega. “Não, isso é inverdade. Isso é uma mentira. É um absurdo, não existe. Não existiu e nem nunca vai existir”, afirmou Diego de Nadai. Ele admite ter encontrado Fábio, “mas nunca pra tratar nada referente a negociata”.
O secretário de Saúde, Fabio Bordon, também nega irregularidades. “Eu tenho total tranquilidade em afirmar que não tive nenhum recebimento de qualquer favor em meu benefício em razão desse contrato com o Instituto SAS”, disse.
Na cidade de Itapetininga, o Ministério Público diz que a entidade desviava dinheiro desde 2007. Depois das prisões, a prefeitura reassumiu a gestão do hospital. “Eu acredito que a nossa equipe fez o melhor, mas agora eu pedi uma avaliação rigorosa de tudo pra que nós possamos, com o acompanhamento dos fatos, inclusive evitar que situações como essa ocorram mais vezes”, disse o prefeito Roberto Ramalho Tavares.
Na farmácia do hospital, a polícia diz ter encontrado remédios vencidos.
O Fantástico procurou todas as prefeituras. A de Araçariguama e do Rio dizem que não constataram irregularidades. A prefeitura de São Miguel Arcanjo informa que as metas da entidade estão sendo cumpridas. A de Vargem Grande Paulista diz que vai notificar a organização.
Sobre o hospital de Araranguá, a Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina afirma que vai analisar a prestação de contas.
O advogado Celso Vilardi, que defende Fabio Carone, informou que só vai se manifestar depois de estudar a investigação. O SAS e o instituto SAS afirmam que os diretores negam as acusações.
“A imagem do dinheiro apreendido na casa do Fabio é muito forte e fala por si. Penalizando quem mais precisa dos serviços de saúde pública que é a população mais carente”, diz o promotor Wellington dos Santos Veloso.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Venda da Amil: negócio bilionário na Saúde!

A multinacional norteamericana da saúde, UnitedHealth, adquiriu a empresa líder do mercado brasileiro pelo valor de R$ 10 bilhões. Além disso, a negociação implicou a transferência de um conjunto de mais de 20 hospitais. Mas, ao que tudo indica, a grande aposta do novo controlador é mesmo o segmento de planos privados de saúde.
Passada a ressaca eleitoral dos municípios, o tema mais comentado na área da saúde deixa de ser a dificuldade de atendimento à população em razão da falta de recursos orçamentários. Não que isso tenha sido resolvido com a eleição do prefeito e dos vereadores. Mas o que tem chamado a atenção dos especialistas da área – além do importante debate a respeito da falsa solução por meio das Organizações Sociais (OSs) – é o negócio, literalmente bilionário, envolvendo a venda do maior grupo privado brasileiro do setor, a Amil.
A transação teve início há vários meses e correu em sigilo entre as partes interessadas: o grupo presidido pelo empresário brasileiro Edson Bueno e a mega corporação norte-americana, UnitedHealth – maior do setor naquele país e uma das maiores no mundo. Algumas informações só começaram a ser reveladas de forma mais ampla a partir de meados de outubro, quando as intenções foram confirmadas, bem como as cifras envolvendo o negócio. O resumo da ópera é que a multinacional da saúde adquiriu a empresa líder do mercado brasileiro pelo valor de R$ 10 bilhões.
Compra da Amil: legislação proíbe estrangeiros de operar hospitais
A estratégia de penetração dos novos atores no negócio de saúde em nosso País envolveu a compra dos planos de saúde do grupo Amil, que já havia adquirido a Medial há alguns anos e, assim, se consolidou como o maior agente privado do ramo. Além disso, a negociação implicou a transferência de um conjunto de mais de 20 hospitais pertencentes à empresa fundada por Bueno. No entanto, ao que tudo indica, a grande aposta do novo controlador é mesmo o segmento de planos privados de saúde, com a expectativa de ampliação e expansão de novos perfis de “clientes e consumidores”. Aliás, essa é exatamente a terminologia utilizada, confirmando a tendência de mercantilização radical desse serviço público, ainda que a Constituição Federal (CF) o assegure como um direito amplo e universal à nossa população.
Não bastasse a magnitude dos valores envolvidos e a elevada sensibilidade da matéria como futuro estratégico de uma das políticas públicas mais importantes, a transação está marcada por um conjunto preocupante de elementos obscuros e polêmicos. Vejamos alguns deles.
A CF estabelece, em seu artigo 199, a proibição de empresas estrangeiras atuarem na saúde, “salvo nos casos previstos em lei”. Pois bem, em 1998, tal aspecto foi regulamentado pela Lei nº 9.656 e não foi previsto nenhum dispositivo autorizando a operação de hospitais. Ou seja, em termos objetivos, continua sendo proibida a posse e a gestão desse tipo de serviço por grupos como a UnitedHealth. Utilizando-se da desculpa esfarrapada de que o “foco” do negócio são os planos de saúde e que os hospitais seriam elemento secundário para o novo controlador, o argumento foi aceito pela direção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão regulador e fiscalizador do sistema, que aprovou mesmo assim a venda sem nenhuma restrição.
Ameaça à concorrência e rapidez na aprovação
Por outro lado, a operação não foi objeto de avaliação por parte do órgão federal que cuida das condições de defesa da concorrência e risco de cartelização, o CADE. Além da venda caracterizar a continuidade de concentração de poder econômico do maior grupo atuante no setor, a condição de novo proprietário aponta claramente para uma ampliação estratégica de sua presença no setor econômico da saúde em nossas terras. Se adicionarmos o ingrediente de que sua lógica de funcionamento obedecerá, a partir de agora, aos interesses definidos pelos norte-americanos, causa estranheza a liberalidade com que tal acordo foi sancionado pelas instâncias do Estado brasileiro.
A agilidade com que o processo foi avaliado no interior da ANS também chamou a atenção dos profissionais que acompanham o setor. Em geral, os processos envolvendo o órgão regulador da saúde privada levam meses para serem aprovados ou indeferidos. No caso dessa transação, a agência levou apenas 2 semanas para emitir seu parecer final, conferindo o aval para que a Amil fosse vendida aos americanos. O tratamento do dossiê com tais requintes de “eficiência administrativa excepcional” põe novamente em relevo a delicada relação entre os dirigentes dos órgãos reguladores e as empresas objeto de regulamentação e fiscalização. É amplamente conhecido o fenômeno chamado de “captura”, em que os interesses públicos acabam sendo deturpados pela atuação dos responsáveis pelas agências ocorrer mais de acordo com a lógica dos interesses das próprias empresas.
No caso concreto, há evidências de que diretores da ANS freqüentaram espaços da vida privada do presidente da Amil, além de terem sido dirigentes de empresas do próprio setor, como a concorrente Medial, que terminou por ser vendida ao próprio grupo de Bueno. Assim, esse tipo de relação incestuosa no âmbito público/privado coloca em cheque a capacidade das agências defenderem, de fato, os interesses públicos e dos usuários do sistema de saúde.
UnitedHealth: riscos de mercantilização e de americanização
A venda do grupo por valores bilionários deve servir como elemento de reforço da preocupação com o futuro da saúde pública em nosso País. A decisão estratégica do grupo norte-americano certamente levou em consideração cenários de longo prazo, construídos para o chamado “mercado” da saúde. Não obstante a determinação constitucional pelo caminho do SUS, o fato é que os sucessivos governos, no âmbito federal e demais, têm contribuído para o sucateamento do nosso sistema público de saúde. Ao promover contingenciamento de verbas orçamentárias, ao permitir a extinção de fontes importantes de financiamento (como a aceitação passiva do fim da CPMF) e ao estimular o modelo de privatização/concessão/terceirização por meio das OSs, o Estado brasileiro termina por sinalizar que sua opção estratégica pode ser mesmo pelo fortalecimento do setor privado na área. Só o futuro dirá.
Ora, se o caminho adotado será mesmo o da continuidade da chamada “americanização” de nosso sistema de saúde, então faz todo o sentido o investimento bilionário efetuado pelo grupo UnitedHealth. Porém, mais uma vez, estaremos pegando o bonde errado e atrasado da História.
Os Estados Unidos estão justamente tentando promover importantes mudanças em seu próprio modelo. Está em debate a possibilidade de recuperação parcial da presença do Estado na saúde, uma vez que o sistema de mercantilização absoluta revelou-se injusto do ponto de vista social e incapaz de dar conta das necessidades de saúde da população norte-americana. É claro que todo esse quadro foi dramatizado, ao longo dos últimos anos, em função do aprofundamento da crise econômico-financeira e da situação de penúria social.
No caso brasileiro, a estratégia do novo gigante da saúde parece estar em sintonia com o discurso do governo a respeito da ilusão, criteriosamente espalhada aos quatro ventos, a respeito da chamada “nova classe média”. Ao invés de reforçar os aspectos positivos de inclusão sócio-econômica e de recuperação das condições de vida de segmentos até então excluídos, o governo opta por um caminho simplista e perigoso. Parcela importante das famílias passou a contar com níveis mais elevados de renda real por conta de fatores diversos, tais como o Bolsa Família, os benefícios da previdência social, a recuperação dos valores do salário mínimo e a elevação dos rendimentos mais baixos de uma foram geral. Porém, é importante lembrar que trata-se de grupos de perfil econômico da base da pirâmide social. Com isso, o discurso oficial acaba sendo impregnado pelos interesses de aprofundar a mercantilização dos serviços públicos, a exemplo da saúde e da educação.
Saúde privada e os riscos da qualidade no atendimento
O foco passa a ser a destinação de parte da renda suplementar para o consumo de todo tipo de mercadoria. E aí incluem-se as mensalidades de educação infantil, fundamental, média e superior, bem como a compra de planos privados de saúde. As novas camadas que passam a engrossar esses níveis um pouco mais elevados de renda familiar são bombardeadas com os padrões de consumo das faixas que se situam no alto da pirâmide. Como o Estado não consegue oferecer serviços de saúde de qualidade e na quantidade necessária, a ilusão de eventual satisfação das necessidades acaba ocorrendo por meio da oferta privada.
Não construamos nenhuma fantasia a respeito das intenções da UnitedHealth quanto à saúde de nossa população. Trata-se de negócio apenas, puro “business”, nada mais. E a lógica de uma aquisição empresarial envolvendo R$10 bilhões é a do rápido retorno sobre o capital investido e a maximização dos ganhos daqui para frente. Como o balanço contábil e financeiro de uma empresa capitalista envolve sempre a superioridade das receitas sobre as despesas, a orientação será arrecadar no limite superior e gastar o mínimo possível. Ora, uma racionalidade dessa natureza obviamente deixa em segundo plano os aspectos de qualidade de tratamento e os riscos a respeito da saúde e da vida dos cidadãos.
Isso não significa isentar o serviço público de suas deficiências e do longo percurso a percorrer para aperfeiçoar a qualidade do atendimento proporcionado. Aliás, não fosse por tais problemas reais, talvez não houvesse tanto espaço para o crescimento da alternativa privada. No entanto, a mercantilização dos serviços de saúde apresenta o sério risco de conferir ares de legalidade à exclusão, quando as imagens dos indivíduos sendo barrados à porta de centros de tratamento e hospitais nos vêem à cabeça. Caso a operação bilionária se confirme mesmo como fato consumado, o caminho passa pelo reforço da regulação e da fiscalização do poder público, com o objetivo de evitar que os maiores prejudicados sejam, uma vez mais, os próprios usuários do sistema.

domingo, 4 de novembro de 2012

Audiência Pública contra às Fundações Privadas

No dia 07/11/2012 às 14h no auditório da ALERJ, 6º andar, haverá uma Audiência Pública contra às Fundações Privadas Inconstitucionais, instaladas na saúde pública em detrimento dos servidores públicos, dos concursos públicos e do controle social. Por iniciativa de servidores estatutários solicitada ao deputado Paulo Ramos, pedimos o comparecimento de todos os servidores em caráter de urgência, para derrotar-mos esta ameaça que está fechando hospitais públicos e impedindo os concursos públicos, com a finalidade de desviar verbas para empreiteiros.
Vale informar, que o STF proibiu por unanimidade às famigeradas OS no Rio, e a cada derrota destes sanguessugas da saúde, criam-se vários ataques para burlar a Constituição Federal/88, ora com Cooperativas, ora com OS, Ocip, ONG e Fundações Privadas.
Em 1998, quando oposição, o PT e o PDT criaram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 1923/98), contra toda e qualquer privatização da saúde. Entendemos que, com a decisão do Supremo contra às OS, a proibição das Fundações Privadas não será diferente, e achamos que eles também sabem disso, só estão tentando ganhar mais algum dinheiro público enquanto podem.
Então, vamos dia 07/11 à ALERJ, lutar e conquistar essa vitória e identificar, quais os políticos continuam junto aos empreiteiros, contra os servidores, contra o povo e o controle social.

Organizações sociais: A máfia organizada na saúde

Estamos vivendo uma época de ataques dos liberais burgueses. Por isso é importante entendermos o que está acontecendo, e que milagre é esse das organizações sociais de saúde.
 
O SUS: uma conquista dos trabalhadores
Antes da promulgação da constituição de 1988, só tinham acesso gratuito à saúde os trabalhadores com registro em carteira e ligados ao extinto INAMPS. Quem não era trabalhador formal ou não tinha acesso à carteira assinada ficava marginalizado, não era atendido ou até mesmo era, mas de forma muito precária. Após a promulgação da CF/88 ficou garantido a todos os cidadãos brasileiros a universalização dos serviços de saúde, com eficiência e qualidade através de um regime público e gratuito conhecido como SUS sistema único de saúde, sendo regulamentado pelas leis 8080/90 e 8142/90. Todas essas conquistas, com certeza foram uma luz no fim do túnel para todos os trabalhadores registrados e informais que viviam a mercê do INAMPS, dos planos de saúde privados ou na indigência. Passados mais de 20 anos, o SUS é um sistema consolidado, com ampla rede de hospitais espalhados por todo o país, unidades básicas de saúde (famoso postinho), o programa saúde da família, os agentes comunitários de saúde e uma gama imensa de remédios distribuídos gratuitamente. Cabe ressaltar que verdadeiros impérios como os ESTADOS UNIDOS não têm o acesso à saúde garantido a todos, e a rede de atendimento é semelhante ao molde brasileiro anterior a 1988. Com certeza o SUS foi uma das maiores conquistas dos trabalhadores brasileiros.
 
A precarização da saúde pública
Apesar da universalidade do acesso ao SUS ser direito de todos, infelizmente na prática a teoria é outra. Hospitais superlotados, filas para consultas, para cirurgias, para exames, desespero, dor e sofrimento. Para quem trabalha no sistema, faltam materiais básicos, equipamentos, condições laborais dignas, estrutura física e principalmente falta gente. Uma das principais reivindicações do paciente (hoje chamado de cliente) é que seja pelo menos atendido e dos trabalhadores da saúde é a de que haja mais gente para trabalhar. É notório o achincalhamento do SUS por seus gestores.
Os investimentos em infraestrutura, aquisição de equipamentos, de suprimentos básicos, a contratação e treinamento de trabalhadores têm ficado em segundo plano nos planos dos gestores públicos. Mas porque não são feitos os investimentos necessários? Alega-se falta de dinheiro. Mas porque não se contrata mão de obra, paga-se dignamente, desenvolve-se esses trabalhadores em planos de carreiras sólidos?
A Lei 101/00, Lei de Responsabilidade Fiscal, arrocha esse desenvolvimento, e dessa forma os gestores se escondem atrás de um redemoinho de problemas criados para que realmente acontecesse o que está acontecendo. Mas no momento em que o SUS vive uma fase de descrédito, passa por uma “crise existencial’ criada por anos e anos de descaso e abandono, eis que surge a solução dos problemas, as messiânicas ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE ou OSS. Repentinamente o SUS se torna a galinha dos ovos de ouro.
A burguesia e o capitalismo operando milagres
Levando em conta que a legislação que o governo paulista utiliza para legalizar as OSS, é tida como referência para outros Estados e municípios, tomarei como base esta legislação para falar sobre as OSS. A definição legal para OSS é: pessoa jurídica de direito privado com atividades destinadas à saúde. Essas empresas são qualificadas pelo estado não necessitando celebrar licitações para efetivar essas contratações. Fica a juízo do secretário de saúde indicar a empresa que vai gerir o equipamento público em questão. Deixando claro que pode ser qualquer aparelho de saúde, hospitais, laboratórios, ambulatórios e por aí vai uma infinita extensão de oportunidades de usurpação do dinheiro público.
Mas os defensores das políticas liberais têm argumentos que tentam justificar a implantação das OSS. Por exemplo, só pode ser candidata à OSS empresas sem fins lucrativos. Veremos.
Vamos pegar, por exemplo, que um Estado X terminou de construir um hospital, vai inaugurá-lo e entregar para uma OSS Y administrar. Uma das características destes hospitais é que eles atendem nichos específicos, como por exemplo, este hospital pode ser só de transplantes, ou só ortopédico/trauma, infantil. Dificilmente são hospitais gerais, ou com um número maior de referências. Vamos supor que este hospital tenha como referência somente atender pacientes com câncer. Na hora de estabelecer o contrato a secretaria determina quais e a quantidade de atendimentos a serem realizados. Nesse caso hipotético fica determinadado que o hospital deverá ter que internar pelo menos 400 pacientes mês. Em seu ambulatório terá que realizar 1200 consultas especializadas mês. Terá também que realizar 2000 sessões de quimioterapia mês. Fica acordado também que assim que assumir, a OSS terá que adquirir um equipamento que realize radioterapia (sem licitação). Se a OSS não cumprir todas as consultas, internações e sessões de quimioterapia a OSS terá repassado aos seus cofres pelo Estado um valor x. Sendo esse valor x o mínimo que a OSS receberá, não importando a quantidade de atendimentos. Mas se ela for uma OSS bem comportada e cumprir com todas as exigências mínimas, ela receberá x mais 10%. Agora se ela for uma OSS muito dedicada, e atender toda a demanda mínima e mais um paciente que seja, adivinhem o que acontece? A multiplicação dos pães e dos peixes. A OSS em questão perceberá o valor x mais até 70% do valor inicial como um bônus.
Mas não para por aí. A OSS que administra o hospital também receberá dinheiro do SUS pelos procedimentos, consultas e internações que realizar, de acordo com a sua referência, que nesse caso é oncologia. O SUS, por sua vez, paga razoavelmente bem, ainda mais quando forem para procedimentos de alta complexidade. Continuando, essa empresa é obrigada a receber em seu hospital um mínimo de 75% de pacientes pelo SUS, o resto pode ser vendido para planos de saúde. Esses 25% de pacientes que dão entrada no hospital pelos planos de saúde, ou seja, de outras empresas privadas, são atendidos normalmente junto com os outros pacientes.
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar, órgão que regula os planos de saúde, existem tabelas mínimas que as operadoras dos planos são obrigadas a pagar às clínicas, laboratórios e hospitais. Essa tabela existe para que os planos não abusem de seu poder econômico e paguem aquém da tabela aos prestadores de serviço. Mas fica a critério de cada um fazer valer na lei. Então vejam só como o capital tira coelho da cartola: O que acontece, é que quando alguém se utiliza do plano nesse hospital administrado pela OSS Y, ela vai cobrar um valor menor que a tabela exigia da operadora do plano, beneficiando diretamente bancos e cooperativas que são as maiores administradoras de planos de saúde no Brasil. Lógico que o hospital vai ter prejuízo, mas fique tranquilo, pois aqueles procedimentos de alta complexidade que o SUS paga e bem, vão cobrir os rombos criados pelos planos privados de saúde.
Mas não para por aí, as inatacáveis OSS têm total liberdade para contratar empresas terceirizadas sem licitação, empresas essas que serão pagas com dinheiro público. Terceirizações e contratações de funcionários sem concurso público que trabalharão na maior jornada possível, com o menor salário possível. Sempre com um objetivo, atender muito e atender rápido. Expediente nocivo esse, quando se troca a conduta médica mais adequada, pela mais rápida, quando se precariza as condições de trabalho, com extensas jornadas de trabalho, com o mínimo possível de salário, sem carreira e sem estabilidade. Eles agem assim e têm como argumento que dessa forma acabam com entraves burocráticos e possuem ferramentas ágeis para o gerenciamento do quadro de funcionários. Mas tem uma coisa que não é dita, por exemplo, quando este hospital atingir sua capacidade máxima, ele simplesmente fechará as portas para novos pacientes, atitude que não é tomada por um hospital totalmente público.
Claro, não estou aqui defendendo que ninguém fique em macas nos corredores, mas fechar o hospital quando se chega ao limite de sua demanda para que se tenha uma impressão de que toda a demanda é atendida e com conforto, é hipocrisia. Eles mantêm o hospital limpo, com um ambiente agradável, e fazendo muito dinheiro, com o nosso dinheiro. Isso é o que são empresas sem fins lucrativos. É óbvio que quem consegue ser atendido vai gostar, mas em detrimento de quem ficou na porta do hospital, ou nos corredores dos hospitais públicos que nunca fecham as suas portas. E o mínimo que é prestado aos planos privados de saúde que pagam abaixo da tabela para nossos hospitais, quem cobra esses favores de volta?
Argumentam que o problema é de gestão e não de falta de recursos financeiros. Sim falta gestão, mas também dinheiro. Em 2008, oficialmente o governo gastou 4,81% em saúde. Isso inclui TODOS os gastos do governo federal em saúde pública. Já para rolamento da divida externa foram dedicados 30,57% de tudo o que o país arrecadou para os banqueiros. O que o governo federal gastou com o pagamento da divida aos banqueiros dava para aumentar o orçamento da saúde em 7,5 vezes. Pode até parecer simplista, mas é a realidade. Isso não é uma exclusividade do governo federal, pois os estados também fazem economia do nosso dinheiro, os chamados superávits, para pagamento de dívidas absurdas e que não condizem com a realidade social brasileira.
 
A saída é à esquerda
Agora a gestão dos hospitais. Este modelo de gestão liberal está errado. Este modelo que entrega de bandeja o bem público conquistado com o trabalho de cada contribuinte, é no mínimo uma afronta para com toda a população. Acredito ter sido claro, nas explicações. O modelo aqui apresentado é o modelo paulista, mas muito parecido com o modelo que se tenta implantar em Santa Catarina, Minas Gerias, entre outros estados e cidades. Mas o modelo tradicional, o modelo vigente em grande parte dos hospitais também não funciona. Quando os cargos que preenchem os corredores de um hospital não são técnicos e sim cargos políticos, quando a grande maioria dos caciques está entrando em um hospital público pela primeira vez, o que se esperar deles?
Lógicamente, nada. Hospitais têm que ser 100% públicos, com servidores concursados, treinados, estimulados em todas as áreas, inclusive vigilância e limpeza. A gestão destes hospitais tem que ser verdadeiramente democrática, com comissões de trabalhadores eleitas pelos próprios trabalhadores junto à comunidade, e com mandato revogável a qualquer momento. Com certeza a luta que nos espera é gigantesca, mas não podemos permitir que a saúde pública, se torne o negócio saúde, que o SUS, uma conquista de toda classe trabalhadora, se torne alvo da rapina desses urubus, que não medem esforços para aumentar seus lucros e o tamanho do seu poder.
Enfim, vivemos uma crise, não só da saúde, mas também da educação, da cultura, dos esportes, da segurança, vivemos uma crise do sistema em si, que cada vez mais se encontra colapsado. Um sistema que cada vez mais exige de nós e cada vez menos devolve, que nos vê apenas como meros robôs programados para consumir. Está na hora de um basta. Trabalhadores vamos nos organizar e lutar rumo a um governo que realmente seja da maioria. Um governo socialista dos trabalhadores.
 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pacientes do hospital público mandam recado para secretário de Saúde

Pacientes do hospital público elogiam atendimento e mandam recado ao secretário de Saúde SÉRGIO CÔRTES


 "Minha filha foi muito bem atendida aqui e tenho certeza de que ele também seria. Ainda mais sendo o secretário de Saúde. Pode vir para cá, secretário!", disse Alexandra Borges Gomes, de 28 anos, enquanto aguardava, na emergência do Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, o resultado dos exames feitos na pequena Thayná, de 2 anos, que sentia dores na barriga e já havia vomitado algumas vezes.
A diarista se referia ao secretário estadual de Saúde, Sérgio Cortes, que, ao sofrer intoxicação por fumaça e um corte na perna num incêndio que atingiu sua cobertura dúplex, na Lagoa, na madrugada de sexta-feira, preferiu ser levado a um hospital privado ao de referência do Samu na região, o Miguel Couto.
Mas se há quem esnobe, outros fazem questão de ser atendidos lá. E o caso da estudante Letícia Aparecida de Almeida, de 19 anos, que mora a cerca de 30 quilômetros do hospital — a cobertura de Cortes fica a 1,5 quilômetro da unidade —, mas só confiou nos médicos do Miguel Couto para examinar seu filho de 2 anos, que se acidentou numa piscina.
— Moro em Curicica. Peguei dois ônibus para chegar aqui. Levamos uma hora e meia com o Henry no colo, chorando de dor, mas não vou ao Lourenço Jorge nem a nenhum outro hospital. O atendimento aqui é melhor — disse ela, que, cerca três horas depois, saía da unidade com o filho imobilizado. — Foi uma fratura de fêmur. Valeu a pena ter vindo aqui.
Acompanhando a mãe numa enfermaria da Clínica Médica desde quarta-feira, o auditor fiscal de qualidade Evandro Marques, de 32 anos, também é só elogios: 

"Vim de Curicica, mas valeu a pena. O atendimento é bom"
Letícia de Almeida
Estudante 
 
— O atendimento aqui é diferenciado. O secretário de Saúde poderia vir para cá. Ele seria bem tratado. E devia ter dado o exemplo. Se todo mundo tem que passar por um hospital público, ele também deveria.
 
PERGUNTAS QUE FICARAM SEM RESPOSTA
 
O PRIVILÉGIO
A Secretaria estadual de Defesa Civil, responsável pelo Corpo de Bombeiros, não respondeu ao EXTRA por que a guarnição que levou Sérgio Cortes para um hospital privado, em vez do de referência, não será punida, já que quebrou uma norma da corporação.
Também não informaram quem deu autorização à equipe para quebrar a regra.
 
A NORMA
A Secretaria de Defesa Civil também não informou a razão de existir uma norma que determina que as vítimas sejam levadas apenas para os hospitais de referência da rede pública.
 
ATENDIMENTO DO SAMU
A assessoría de imprensa dos Bombeiros respondeu que não informaria quantas remoções foram feitas para hospitais públicos e para hospitais particulares desde o ultimo sábado pelas ambulâncias do Samu/GSE.
JORNAL EXTRA